Entrevista Madre Yvonne Reungoat
Deixamos-te aqui uma entrevista feita à Madre Yvonne Reungoat, Madre Geral das Filhas de Maria Auxiliadora, adaptada do sítio na Internet do MJS do Triveneto, Itália. Esta entrevista foi feita por ocasião do seu aniversário, nas imediações de um evento daquela inspectoria salesiana chamado ‘Festa dos Jovens’. Agradecemos ao Manuel Mesquita mais uma vez pela tradução do original.
Alguns de nós já tivemos a oportunidade de estar perto da sucessora de Madre Mazzarello, e fomos facilmente contagiados pela sua alegria de viver, pela sua imensa disponibilidade e amor aos jovens. Isso é algo que transparece a cada segundo na vida de Madre Yvonne. Temos agora a possibilidade de a ficar a conhecer um pouco melhor.

1. Madre Yvonne, pode falar-nos de si, da sua história? Onde nasceu e cresceu a sua paixão pelos jovens?
Nasci na Bretanha (França), numa família católica praticante. Tinha um tio sacerdote salesiano, missionário no Canadá, que pontualmente nos enviava o boletim salesiano. Foi assim que aprendi a conhecer D. Bosco, a madre Mazzarello e o carisma salesiano, espalhado pelos cinco Continentes. Aprendi que estes nomes estavam ligados aos jovens e que os jovens são a parte mais preciosa da humanidade. Tudo o que lia encontrava uma grande ressonância em mim: eu também queria ser um sinal de amor por esses jovens, mesmo não sabendo como.
2. Quando e como percebeu qual era o seu caminho? Que dificuldades encontrou?
Providencialmente, foi a presença deste meu tio que permitiu que os meus pais conhecessem a escola de Dinan, orientada pelas Filhas de Maria Auxiliadora. Nela fiz a experiência de ser pessoalmente envolvida pela amabilidade salesiana. Tudo me atraía e fazia tudo com naturalidade e simplicidade. Até ao ponto de amadurecer a ideia de tornar-me salesiana. A directora de Dinan foi uma verdadeira companheira e o clima educativo da comunidade apoiou a minha caminhada. As FMA possuíam a arte de fazerem de nós protagonistas. Confiavam-nos pequenas responsabilidades adequadas às nossas possibilidades, de modo a sensibilizar-nos para o serviço aos outros.
O acompanhamento e a atenção dispensada ajudaram-me a amadurecer a resposta vocacional. Cresceu gradualmente em mim a consciência duma exigência de totalidade no amor pelos jovens; não apenas como religiosa consagrada, mas como FMA missionária, ao serviço incondicional dos jovens, para onde quer que fosse enviada.
Diria que não encontrei dificuldades especiais na realização da minha vocação, porque os meus familiares deixaram-me livre de seguir o meu caminho.
3. Onde vive e o que faz na sua vida? Pode falar-nos do seu dia-tipo?
Vivo em Roma, onde cumpro o serviço de Superiora geral das FMA. A minha vida tem esta missão principal: ser sinal de unidade e de comunhão entre as irmãs, revitalizando o carisma que D. Bosco nos deixou como herança e Maria Dominga Mazzarello interpretou com as cores da feminilidade. Isto implica viagens, conhecimento, escuta, encontros, estudo, avaliações, decisões e opções.
É difícil descrever o meu dia-tipo porque este está aberto a todos os imprevistos, necessidades, surpresas, boas e menos boas (como quando acontece um tsunami, um terramoto ou um aluvião) que um grande instituto como o nosso tem de gerir. O que não falta, num dia, é o encontro com Jesus na celebração eucarística. Posso dizer com simplicidade que Jesus é o centro do meu dia e da minha vida. Esta já não me pertence. Com Ele, torno-me pão para partilhar com os outros. Depois da Missa, abre-se o tempo da disponibilidade aos outros, que é uma dimensão da disponibilidade a Deus em Jesus.
À noite, com as irmãs do Conselho geral, reservamos sempre alguns momentos para a celebração comunitária das Vésperas. Semanalmente, fazemos a partilha da Palavra de Deus, da qual nos vem a luz e a esperança para as nossas decisões.
Frequentemente, a minha vida é passada em viagem pelo mundo e então fica sujeita às regras e aos programas dos outros. A expressão que uso habitualmente quando chego a um lugar é esta: «Estou à vossa disposição. Não tenho outros programas pessoais».
Não pode faltar, nas minhas viagens, o encontro com os jovens. Com eles descubro o tipo de dificuldades que vivem, os sofrimentos e fragilidades que os afligem, mas também as esperanças que alimentam. Levo sempre os jovens no coração, animada pelo impulso do “Da Mihi animas cetera tolle” (dá-me almas e fica com o resto).
4. O que significa para si ser Madre Geral?
Amadurecer em cada dia a consciência de estar ao serviço dum desígnio maior do que eu posso prever, imaginar e calcular. Viver em atitude de escuta do desígnio do Espírito Santo que quer fazer da nossa Família religiosa um sinal fiável, visível e credível do amor previdente de Deus para com as jovens gerações do nosso tempo. Estas não são nem piores nem melhores do que as outras, mas são o resultado da esperança que depositamos nelas, do desafio educativo que conseguimos elaborar juntos como comunidade educativa, animados pela espiritualidade salesiana.
5. Que traz consigo de todas as viagens pelas várias casas salesianas e dos encontros com tantas irmãs e tantos jovens?
Trago a alegria, a esperança, mas também o cansaço, as desilusões, a falta de recursos. Comovo-me todas as vezes que recordo tantos jovens do MJS, que muitas vezes se oferecem como voluntários para ajudar os mais necessitados, sempre activos e dinâmicos a levar por diante a animação dos ambientes educativos salesianos.
Pensando nos jovens, vejo que mesmo aqueles aparentemente mais refratários, deixam toda a rigidez e defesa quando se apercebem que o educador os aborda com discrição e doçura; quando ouvem a palavra de alguém que os ama e, por isso, ousa propor-lhes ideais altos. E os jovens aderem.
A mesma emoção se apodera de mim quando penso nas canseiras das minhas irmãs FMA, muitas vezes em lugares distantes de missão, privadas de toda a comodidade, para partilhar em tudo a vida dos seus pobres, especialmente dos jovens. Mas também de FMA que gastam com amor a sua existência no dia-a-dia dos diversos ambientes educativos.
Surpreendo-me sempre a pensar na luz que brilha nos olhos de irmãs idosas, que nunca perderam a alegria da sua vocação e a irradiam por todos os poros. Invade-me um forte sentido de gratidão quando vejo leigos empenhados que partilham o nosso projecto educativo e exprimem na comunidade educativa a alegria da sua vocação específica. É um testemunho de vida que oferecemos hoje, muito apreciado, em ambientes onde a concorrência, a fragmentação das relações e o individualismo correm o risco de se tornarem o padrão.
6. Que papel têm, na sua opinião, madre Mazzarello e D. Bosco para os jovens de hoje?
D. Bosco e madre Mazzarello são ícones vivos para os quais nós e os próprios jovens olhamos com admiração. São como um farol que ilumina, sal que dá sabor, leme que orienta, esperança que se vislumbra no horizonte. São, sobretudo, pais e mães que continuam a gerar vida porque são uma centelha do próprio coração de Deus. Companheiros geniais dos jovens, em cadeia com eles: por e com os jovens.
7. Já conhece a Festa dos Jovens? (Festa Jovem) Que espera dela? Como a imagina?
Nunca participei em encontros com esta denominação específica. Espero encontrar FMA e Salesianos empenhados na Pastoral Juvenil, juntamente com jovens pensantes e alegres: jovens capazes de olhar para o futuro com realismo e esperança. Jovens motivados, desejosos de partilhar a alegria e a festa com os outros. A festa é dimensão fundamental do mistério cristão. Como salesianas e como Movimento Juvenil Salesiano, não podemos esquecê-lo. Os nossos Santos puseram em evidência a alegria como sinal dum coração que ama porque sabe que é amado.
Imagino uma grande concentração de jovens. Talvez haja expectativa recíproca. Certamente que aquilo que eles nos vão oferecer será mais do que o que nós, adultos, poderemos oferecer-lhes.
Domingo de Ramos. Ano B
Domingo de Ramos. Ano B«PAIXÃO DE CRISTO»Jesus aceita cumprir o projecto do Pai, mesmo quando esse projecto passa por um destino de cruz. |
